Há vários anos, fui à Grécia. Nesta viagem tive a oportunidade de visitar Atenas e naturalmente a sua coroa de orgulho e glória, a acrópole.

Não se iludam pelas românticas e utópicas imagens clássicas, Atenas é actualmente uma cidade de trânsito caótico asfixiada pela poluição, no horizonte amontoam-se aquilo que pode ser descrito apenas como tumores urbanísticos do século XX muito como se vê na grande Lisboa ou no grande Porto e as ruas constituem um labirinto onde o mais experiente dos guias se consegue perder com facilidade.

Independentemente dos desencantos da furiosa cidade e da decadência obsessiva de um passado glorioso, uma pérola luta nas entranhas da besta, a já mencionada acrópole e a zona circundante que por algum milagre continuam ainda protegidas.
Uma vez chegados à acrópole podemos caminhar ao longo da mesma entre a excessiva degradação das velhas ruínas mas eis que uma ausência salta a vista, as estátuas do zénite ateniense da autoria do escultor Phidias, não são visíveis em lado algum.
Eis que somos informados do seu paradeiro, o grosso das estátuas do Parténon foram no século XIX, serradas aos bocados do corpo do edifício com cuidado tal que grande parte das estátuas se perdeu no processo de mutilação. O roubo e a pilhagem foram orquestrados pelo então embaixador inglês no Império Otomano, Thomas Bruce, 7th Earl of Elgin ou simplesmente Lord Elgin que as levou para Inglaterra.
Aqui podemos ver o que resta da estátua de Poseidon depois de ter caído durante o processo de extracção, o protagonista de um dos pedimentos:

Um outro acto a que mais tarde se chamou Opus Elgin, mostra a fachada do Erectérion com uma das suas Cariátides substituída por um grotesco pilar de tijolos. Infelizmente não consegui encontrar a imagem mas já a vi.
A mutilação foi de tal forma violenta, que originou choque e polémica na época de Lord Elgin entre os seus pares. O mais proeminente dos seus contemporâneos é sem dúvida Lord Byron, que no seu tom assumidamente sarcástico escreveu:
- Dull is the eye that will not weep to see
- Thy walls defaced, thy mouldering shrines removed
- By British hands, which it had best behoved
- To guard those relics ne’er to be restored.
- Curst be the hour when from their isle they roved,
- And once again thy hapless bosom gored,
- And snatch’d thy shrinking gods to northern climes abhorred!
Sir John Newport e o Member of Parliament Thomas Hughes, também contemporâneos escreveram respectivamente:
The Honourable Lord has taken advantage of the most unjustifiable means and has committed the most flagrant pillages. It was, it seems, fatal that a representative of our country loot those objects that the Turks and other barbarians had considered sacred.
The abduction of small parts of the Parthenon, of a value relatively small but which previously contributed to the solidity of the building, left that glorious edifice exposed to premature ruin and degradation. The abduction dislodged from their original positions, wherefrom they precisely drew their interest and beauty, many pieces which are altogether unnecessary to the country that now owns them.
Depois de uma década ao abandono num barracão na propriedade de Lord Elgin, o governo britânico comprou as estátuas pelo preço exorbitante que Elgin vinha a pedir desde que as tinha roubado e anos mais tarde, Baron Duveen financiou a construção de uma ala no British National Museum para as acomodar e onde permanecem até aos dias de hoje.

Não sendo ainda suficientes os actos de vandalismo que atrás descrevi acrescente-se que nos anos 30, pretensiosamente convencidos de que os mármores eram originalmente brancos e que os tons beije alaranjados se deviam à sujidade, os curadores do museu decidiram limpá-los com substâncias caústicas e esfregões de aço conseguindo com a sua ignorância apenas danificá-los ainda mais.
Até hoje, apesar do descontentamento geral com esta situação e dos insistentes pedidos dos gregos e inclusivé de outros países e instituições de relevo, o governo britânico e o museu recusam-se a ceder a posse das estátuas aos seus legítimos donos contrariando as fortes tendências actuais de devolução de espólio artístico e arqueológico pilhado pelas potências ocidentais, tendência essa também fortemente contrariada pelos franceses. Pergunto-me até que ponto tem este povo a autoridade moral para exigir o quer que seja nestas questões relativamente às actividades dos nazis durante a ocupação.
Espera-se então que os deuses voltem um dia do exílio forçado em Inglaterra. Acho que tal como Dionísio na fotografia, podem ficar sentados à espera.

Quod non fecerunt Gothi, hoc fecerunt Scoti.
Curiosamente ou não, existem fortes movimentos ingleses a favor da devolução dos mármores. Destaco atenção para o British Committee for the Restitution of the Parthenon Marbles.
Um site muito completo sobre o assunto feito por estudantes de uma escola inglesa em Creta na Grécia, The Parthenon Marbles.
Aqui é visível o ridículo da situação, havendo bocados de peças em Londres e outros em Atenas, este site tem uma aplicação em flash que permite ver unidas as peças existentes em cada cidade, Marbles Reunited.
Por fim destaco ainda a atenção para um weblog claramente inspirado por esta selvajaria mas que parece dedicar a sua atenção também a outros actos de roubo artístico ou arqueológico, Elginism.
Em todos estes sites se pode recolher mais informação e até fazer alguma coisa como assinar petições para contrariar o desfecho desta verdadeira tragédia grega. Se derem uso ao Google certamente que encontram muitos mais.
Para terminar queria ainda destacar uma tentativa de reconstituição por computador dos mármores ao edifício original.
Remeto a autoria deste filme para o seu site e aplaudo a iniciativa. Penso que é impossível ficar indiferente quando se tem alguma sensibilidade por estes temas.
Nota: A música no vídeo acima é o Kyrie da Grande Missa em Dó Menor, K 427, salvo erro. Não sou entendido em música mas sou apreciador.
