Ao passear pela minha razoável biblioteca digital de música, dei de caras com o último álbum e grande êxito que António Variações publicou pouco antes da sua morte, “Dar e Receber”.

Para quem não sabe, desde já devo dizer que considero o António Variações um dos mais brilhantes artistas portugueses dos últimos 50 anos na música portuguesa. Combina de forma única simplicidade e extravagância na sua música. Escreveu letras que a meu ver superam tudo aquilo que já foi feito na tristeza que é o Pop português. Sempre extremamente argutas, sentidas ou apenas simplesmente divertidas mas sempre muito ecléticas e profundas mesmo quando parecem um disparate completo.
Não consigo deixar de enaltecer um homem que foi contra tudo aquilo que representa o provincianismo, tacanhez e resignação tão típica nos portugueses e ainda mais naquela época em que ainda se sentiam as sombras não dissipadas do conservadorismo e mentalidade típica do Estado Novo. Um homem que não teve medo de sentir, de abraçar o mundo e de ousar viver de acordo com aquilo que era.
Um homem de origens extremamente simples que conseguiu quebrar as amarras do seu destino e ainda assim homenagear e criticar na sua obra os sentimentos e a mentalidade da qual se conseguiu libertar. Sem qualquer instrução musical, ele conseguia musicalizar tudo e mais alguma coisa de forma surpreendentemente simples, conseguiu fazer aquilo que muitos músicos instruídos falham repetidamente, conseguiu falar à alma das pessoas.
Aqui deixo esta pequena homenagem a esse Deus do Pop português que parece nunca mais ter erguido ninguém à altura do António.
Sei que Variações é um personagem polémico e que muita gente não aprecia a sua música. Eu, que não possuo qualquer tipo de instrução musical, a título pessoal gosto muito da obra dele.
Rapidamente me lembrei da música nº 3, “Canção” do álbum que referi no início, que não é mais que um poema de Fernando Pessoa musicalizado e cantado por Variações. Quem mais para conceber uma versão Pop de um poema pessoano?
Um poema simples, mas que me diz muito:
Canção
Silfos ou gnomos tocam?…
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei…
Mal oiço e quase choro.
Porque choro não sei.Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.Fernando Pessoa
A versão cantada por Variações:
Nota: Aproveito para deixar uma nota de aprovação relativamente ao álbum “Humanos” que contém músicas inéditas nunca lançadas por Variações por causa da sua morte prematura. Os intérpretes Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca fazem um trabalho espectacular e o resultado é simplesmente único, conseguindo preservar o espírito de Variações por completo. Quando ouvimos David Fonseca a cantar, quase nos esquecemos que não é o próprio Variações. Apesar das nítidas diferenças entre Variações e David Fonseca, em certos momento ele recria por completo a alma do original. Manuela Azevedo e Camané também não ficam atrás.
