Profetas da Nova Economia

Há já uns dias, ia eu alegremente pelas ruas de Lisboa e eis que me deparo com um cartaz pautado por cores vivas, a anunciar um espectáculo no Pavilhão Atlântico com a natural ênfase no nome e imagem do célebre protagonista, na mensagem central do cartaz: “Bilhetes à venda” e na data do evento. A rematar a composição gráfica, estavam o endereço do website do evento bem como um número de telefone. Por fim, no rodapé estavam os habituais patrocínios de várias organizações, empresas e instituições com especial destaque para a nossa bem amada Câmara Municipal de Lisboa.

Cartaz Dalai Lama Lisboa 2007

Muitos já devem ter percebido que o animado cartaz composto em vermelho e amarelo em fundo branco se refere não a uma estrela do rock ou do pop ou qualquer outra figura da cultura pop, mas sim a um líder religioso bastante mediático, o Dalai Lama.

Algo intrigado por este fenómeno de massas que até então desconhecia sob estas vestes de rockstar, pus-me em campo e nem precisei de pesquisar, tal como em qualquer fenómeno mainstream que se preze, a informação veio ter comigo.

Num ritual pseudo-intelectual de visita às exposições da Fundação Calouste Gulbenkian, encontrei resmas de panfletos sobre o evento. “Sua Santidade, Dalai Lama, Lisboa ~ Setembro 2007″ anuncia o panfleto:

Panfleto Dalai Lama Lisboa 2007

No panfleto encontramos várias informações de relevo. Descobrimos que a ilustríssima visita de “Sua Santidade” (não confundir com o tétrico senhor de branco que gosta de sapatinhos Prada e iPods) se deve ao convite de várias organizações portuguesas que não vale a pena referir aqui.

Mais interessante ao longo da apresentação, é a torrente de elogios e exaltação dos feitos de “Sua Santidade”. O primeiro ponto foca a atribuição do Prémio Nobel da Paz, a autoria de “vários best-sellers a nível mundial” e o seu papel como “referência incontornável dos séculos XX e XXI”. Tendo em conta o ênfase dado ao best-selling das suas obras, pergunto-me se o Nobel da Literatura não teria sido mais apropriado, talvez um dia… Depois de J.K. Rowling o levar para casa aquando da derrota dos pseudo-intelectuais…

A extensa lista de virtudes e qualidades deste homem humilde continuam, “(…) defensor incansável dos direitos humanos (…) e do equilíbrio ecológico”; “promotor entusiasta do diálogo inter-cultural e inter-religioso”; e não tão entusiasticamente (pelo menos eles removem o adjectivo) do “diálogo entre a espiritualidade budista e a investigação científica de vanguarda, nomeadamente no domínio das ciências da mente”; e por fim “mestre espiritual, filósofo e erudito budista cujo ensinamento é seguido por milhões de seres humanos, budistas e não budistas”.

Desde já podemos tirar uma conclusão rápida: “Sua Santidade” está na moda! Ou pelo menos disso nos querem convencer. Ora veja-se, além de defender os valores habituais consagrados nos direitos humanos, é eco-activista como convém a qualquer estrela pop que se preze. Pergunto-me, porque raio não esteve ele no Live Earth? Seria sem dúvida uma cabeça de cartaz, mas pronto… A Madonna não deve ter deixado… É ainda de perguntar se os seus best-sellers são em papel reciclado e amigos das ovelhinhas e dos malmequeres. Caso não seja o caso, até parece que a eco-wave que tem atravessado o planeta é apenas mais uma moda… (independentemente da validade dos seus fundamentos) Veja-se também, que “Sua Santidade” não olha a credos nem cores! Em suma, um verdadeiro iProphet.

Não sei o que raio é “investigação científica de vanguarda (…) no domínio das ciências da mente”, mas ele promove o diálogo entusiasticamente noutras áreas. Pergunto-me, será que existe direito de interpelação ou resposta durante os espectáculos e ensinamentos de “Sua Santidade” ou simplesmente uma forma acessível de dialogar com ele?

Continuando a leitura do panfleto, descobrimos as inúmeras ligações entre Portugal e o Budismo tibetano que conhecemos através de uma “versão cristianizada” promovida por várias figuras históricas ao longo dos últimos 400 anos mas focada nos séculos XIX e XX.

Como argumento final da apresentação, é-nos sugerido que “num momento crítico da civilização mundial” temos a “rara oportunidade de usufruir dos ensinamentos de Sua Santidade e da partilha de toda a sua sabedoria, compaixão e bom humor”. Notar ainda que “as suas palavras e presença são um bálsamo e uma inspiração para todos (…) que buscam um sentido para a vida e evoluir para o bem do mundo.”

Ah! Finalmente algo mais abrangente, além de todas as suas virtudes que escapam à trivialidade do mundo temporal, “Sua Santidade” é humorista. O stand-up comedy é um sucesso como sabemos. Com “Sua Santidade” seremos introduzidos ao bare-footed comedy?

Depois desta apresentação esclarecedora, o panfleto de “Sua Santidade” desce até nós com um conjunto de actividades associadas à sua visita. Os dois primeiros pontos bem como o último referem conferências, palestras, debates, projecção de filmes e um colóquio sobre os temas já abordados aquando da apresentação, nada de surpreendente.

Mais interessantes são os restantes cinco pontos todos eles referentes à publicação de quatro livros, um audiobook em CD, conferências em DVD, uma obra colectiva e um dossier. Tudo publicado pela Ésquilo com excepção do dossier e de um dos livros. Podemos concluir que o princípio da concorrência e pluralismo neo-liberal não são temas que chamem muito à atenção de “Sua Santidade”. Não vi qualquer informação sobre os preços destes artigos.

Na contracapa vemos “Dalai Lama Lisboa 2007″ e descobrimos que o evento no Pavilhão Atlântico é apenas a ponta do iceberg. Além deste espectáculo, antecedem-lhes nos três dias antes, “3 dias de ensinamentos” que terão lugar no recinto mais privativo do auditório da Faculdade de Medicina Dentária. O homem do sorriso ensinará na escola dos sorrisos, que bela parábola.

Somos ainda brindados com o programa do evento, destaca-se a “Conferência Pública” no Pavilhão Atlântico, “O Poder do Bom Coração” dia 16 de Setembro de 2007. Temos ainda os ensinamentos com o tema “Desenvolver a Paz Interior” durante os três dias de 13 a 15 de Setembro de 2007 que terão suporte num dos livros publicados para o evento. Que conveniente para os participantes.

Além dos habituais contactos, moradas e afins, somos constantemente lembrados que os diferentes eventos são pagos e que podemos comprar bilhete “nas bilheteiras, lojas Fnac e noutros locais habituais”. No caso dos ensinamentos, somos referidos para o website ou o secretariado.

No entanto, é-nos garantido que os preços praticados pretendem apenas suportar o evento e que eventuais excedentes serão doados a instituições de caridade escolhidas directamente por “Sua Santidade”.

Prosseguindo a nossa viagem pela visita de Dalai Lama, a coisa torna-se substancialmente mais sumarenta no website.

Na página inicial podemos ler que os bilhetes para os 3 dias de ensinamentos que antecedem a apoteose da visita de “Sua Santidade” se encontram esgotados. Facto no mínimo interessante quando descobrimos que a inscrição nos ensinamentos nos fica pela módica quantia de 175€ por pessoa. Mas não haja problema, foi criado um espaço adicional no foyer onde através de um ecrã gigante, as pessoas podem assistir aos ensinamentos por uma quantia substancialmente mais simbólica, 90€. Neste segundo caso, “embora não o possam garantir, espera-se que Sua Santidade venha pessoalmente cumprimentar as pessoas presentes no foyer durante os Ensinamentos, como é habitual”. Lembrando Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra”, o Cristianismo tudo promete mas nada assegura e o Budismo tudo assegura mas nada promete.

No pavilhão atlântico, o sucesso parece também estar assegurado. Apesar de ainda existirem bilhetes livres para os balcões 1 e 2 a 25€ e 10€ respectivamente, as plateias a 25€ já se encontram esgotadas. Notar que “as monjas e monges que, por ocasião da visita de Sua Santidade, estão submetidas ao cumprimento dos votos de ordenação do Vinaya” e como tal, têm direito a entrada gratuita.

Descobrimos também que as sessões serão em tibetano o que pode ser inconveniente. Convenhamos que apesar da presença balsâmica de “Sua Santidade”, duas horas de intervenções em tibetano é algo que apenas os mais elevados conseguem suportar, a não ser claro está, que compreendam a língua. Desta forma, os discursos de “Sua Santidade” são traduzidos em directo em 4 línguas, entre elas o português, e para lhes aceder basta apenas alugar os auscultadores disponíveis por uma quantia não especificada bem como uma caução de valor também não especificado.

Porque o corpo carece de cuidados tal como o espírito, a organização do evento não esqueceu os típicos acordos com hóteis destinados aos mais variados níveis sócio-económicos desde o emblemático Marriot à mais modesta Residencial Capital. Apesar de pregar a igualdade espiritual, a igualdade do conforto fica ao critério da carteira de cada um.

E porque nem só de conhecimento vive o homem, os participantes nos ensinamentos poderão por 20€, ter acesso a refeições na cantina da universidade que aloja o evento. Há ainda a hipótese para os mais exclusivos, de uma vasta panóplia de restaurantes vegetarianos para todas as carteiras.

Gostei de ver que não existe a proibição da revenda dos bilhetes depois de comprados. A situação não só está prevista para o caso de oferta de bilhetes como de revenda. “Sua Santidade” a fomentar o mercado livre (o que já tinha ficado bem patente em toda a estrutura da organização e evento).

O acesso à presença balsâmica de “Sua Santidade” é também definido pelo preço do bilhete. Como em qualquer espectáculo, os bilhetes mais próximos são de preço acrescido e os mais distantes bem mais baratos. Mas nada há a temer caso não se tenha apanhado bilhete mais próximo, caso haja uma doação substancial (maior do que 250€), os doadores terão direito a um convite especial para o evento no Pavilhão Atlântico para que se possam sentar numa zona reservada muito perto do palco.

Também acho interessantes os fortes regulamentos e dispositivos de segurança em torno de “Sua Santidade” que incidem directamente sobre a segurança do seu corpo mas também dos seus ensinamentos. Não existe a possibilidade de gravação total ou parcial do evento e os dispositivos electrónicos de gravação são expressamente proibidos no recinto.

Além de proteger incansavelmente os direitos fundamentais do ser humano, “Sua Santidade” parece proteger avidamente os seus direitos de autor o que é louvável nos dias de hoje. Será que podemos comprar os discursos de “Sua Santidade” na iTMS? Com o dispositivo de segurança previsto no regulamento do evento, só se for com DRM…

Quanto à segurança do corpo, nada de espantar, é verdade, mas quebra um pouco a imagem universal do Dalai Lama bem como a tradição neste tipo de homens de serem alvos por recusarem protecção policial e se considerarem acima da sua existência física (o que é verdade de certa forma). Lembremo-nos de Ghandi ou de João Paulo II antes do primeiro atentado. Com um estilo mais populista temos ainda J.F. Kennedy.

Por fim, notar o sumptuoso website, de design muito bem conseguido, alia a funcionalidade eficaz a uma estética aprazível e harmoniosa como não podia deixar de ser tendo em conta as raízes religiosas do evento. Os meus parabéns à Wiz, a empresa responsável pela concepção e design. Tendo em conta a natureza dos seus outros clientes e qualidade do seu extenso portfólio, tenho a certeza de que foram bem pagos.

As minhas conclusões estão mais que expressas ao longo da minha exposição deste evento e só posso dizer uma coisa, independentemente da validade dos seus ensinamentos e filosofia, o Dalai Lama é um ícone pop, um excelente produto como aliás qualquer líder ou movimento de cariz religioso que se preze. Sempre tive tendência a dissociar os aspectos económicos e economicistas de uma religião como o Budismo. Vejo que fiz mal, nem no Cristianismo se vêem estruturas tão bem montadas e tão comerciais como esta em torno de “Sua Santidade”. Paz de espírito, transcendência espiritual e tranquilidade existencial tudo empacotado e à venda para todas as carteiras e gostos. Costuma-se dizer “quem não tem dinheiro, não tem vícios” mas na verdade, depois disto sinto-me tentado a dizer “quem não tem dinheiro, não tem religião ou paz de espírito ou transcendência espiritual ou tranquilidade existencial”, enfim… Acho que já se percebeu a ideia…

“Sua Santidade” parece também estar na crista da onda politicamente correcta de todas questões em vogue. Isto é um mandamento base de qualquer ícone pop que se preze. Só não sei uma coisa, será que foram os profetas que imitaram as estrelas pop ou as estrelas pop que imitaram os profetas? Cada vez me parece mais um pouco de ambos.

Penso que para rematar, deveriam lançar uma cadeia de comida rápida vegeteriana com base em soja plantada nas extensas plantações brasileiras provenientes do abate da Amazónia, o McLama. Depois poderiam ter como mascote o próprio Dalai Lama que qual Ronald McDonald se limitaria a gesticular e a prendar-nos com a sua presença balsâmica. Fica aqui a sugestão aos managers de “Sua Santidade”. Penso que uns óculos Dolce & Gabbana fariam também um milagre pela imagem dele.

Namaste