Cobras e Lagartos

Estádio de Alvalade

Aquando do frenesim mediático em torno da palhaçada global que foi a eleição das “Novas 7 Maravilhas do Mundo”, o jornal Público decidiu fomentar uma discussão jocosa em torno do património arquitectónico e urbanístico português, com uma sondagem online intitulada “Os 7 Horrores de Portugal”.

A lista, a meu ver muito incompleta e um bocado sem pontaria, apesar de extensa era composta pelos seguintes candidatos:

1. Sede da Caixa Geral de Depósitos, Lisboa
2. Praça do Martim Moniz, Lisboa
3. Estádio de Alvalade, Lisboa
4. Centro Comercial Colombo, Lisboa
5. Ampliação da Cinemateca Portuguesa, Lisboa
6. Parque dos Príncipes, Lisboa
7. Largo de Algés e viaduto, Algés
8. Edifício das Amoreiras, Lisboa
9. Shopping Cidade do Porto, Porto
10. Arranjo paisagístico em frente à Universidade Católica, Porto
11. Ponte Europa, Coimbra
12. Fórum Coimbra Shopping, Coimbra
13. Edifícios de habitação ao lado do Palácio do Freixo, Gondomar
14. Hotel Eden, Lisboa
15. Torres São Rafael e São Gabriel, Lisboa
16. Igreja do Santo Condestável, Lisboa
17. Edifício da Império, Rua Alexandre Herculano, Lisboa
18. Edifício BNU, Avenida 5 de Outubro, Lisboa
19. Centros Comerciais da Mouraria, Martim Moniz, Lisboa
20. Centro paroquial e Igreja de S. Francisco de Assis, Calçada das Lajes, Lisboa
21. Sede da MacCann, Amoreiras, Lisboa
22. Basílica de Fátima, no Santuário de Fátima, Cova da Iría
23. Centro Comercial em frente ao Museu Nacional Soares dos Reis, Porto
24. Centro Comercial Dallas, Porto
25. Agência da Caixa Geral de Depósitos em Elvas
26. Feira Nova em Chelas, Lisboa
27. Edifício Marconi, Lisboa
28. Torres de Lisboa, na Segunda Circular, Lisboa
29. Estádio Municipal de Leiria
30. Centro Comercial de Ponta Delgada, Açores
31. Hotel Colombo, Santa Maria, Açores
32. Ampliação do Hospital de Santo António, Porto
33. Santuário de S. Bento da Porta Aberta, Terras de Bouro
34. Praça 1º de Maio, Viana do Castelo
35. Sé de Bragança
36. Torre do Arnado, Coimbra
37. Shopping e Business Centre, Coimbra
38. Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
39. Santuário do Sameiro, Braga
40. Cristo Rei, Almada
41. Santa Luzia, Viana do castelo
42. Praça do Areeiro, Lisboa
43. Oceanário, Lisboa
44. Marina de Vila Moura
45. Estação de Santa Apolónia, Lisboa
46. Edifício do Cassiano Branco na Praça de Londres, Lisboa
47. Conjunto de edifícios na Avenida Sidónio Pais, Parque Eduardo VII, Lisboa
48. Capela dos Ossos, Évora
49. Aeroporto da Portela, Lisboa
50. Faixa central do Parque Eduardo VII, Lisboa
51. Balão Panorâmico na baía do Funchal
52. Edifício da Segurança Social em Aveiro
53. Direcção da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
54. Módulo de Exposições Temporárias e Centro Multimédia da Fortaleza de Sagres
55. Edifício sede da Revigrés, Águeda
56. Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro
57. Igreja Matriz de Reguengos de Monsaraz
58. Centro Cívico de Barrô, Águeda

Mas o mais impressionante não foi a qualidade (ou falta dela) dos critérios seguidos pelo Público para criar esta lista. Gerou-se uma onda de protestos e reclamações tais, como não me lembro de ver no Público, relativamente à presença de certas obras na lista. Poderíamos ser levados a pensar que a presença de inúmeras obras religiosas, algumas delas bastante significativas como a Basílica do Santuário de Fátima, a Sé de Bragança, o Cristo Rei, o Santuário do Sameiro entre outras, podia gerar emoções fortes em pessoas mais sensíveis mas nem foi isso que se viu na maioria dos casos…

A larga onda de protestos foi sobretudo devida ao terceiro candidato da autoria do infâme Tomás Taveira, o novo Estádio de Alvalade… Fiquei perfeitamente parvo com a reacção perfeitamente insana de muitos adeptos do clube na página do provedor!

Uns queriam meter o Público em tribunal e proibir a entrada dos jornalistas e repórteres nas instalações do Estádio, outros queriam que aparecesse lá o Estádio da Luz ou o Estádio do Dragão, outros justificam que um estádio que acolhe espectáculos tão diversos de desporto, música entre outros não pode ser um “horror”, outros comparavam os estádios com as mulheres, dizendo que uma mulher feia para uns é bela aos olhos de outros, mas a maioria dizia apenas que a catedral pós-moderna do seu clube não pode ser de forma alguma um horror devido à sua função como casa-mãe do glorioso Sporting Clube de Portugal.

Tudo isto claro, pautado pela falta de educação total e absoluta, pelo insulto, pelo estímulo do ódio contra o Público e ao desgraçado do provedor que não sabia já bem onde se meter. Nunca tinha visto nada assim…

É muito triste que sejamos incapazes de viver num país onde parece não existir a capacidade de discussão em torno de uma tema, neste caso estético e arquitectónico meramente por motivos de arrebatamento emocional perfeitamente descabido numa insignificância como esta.

Não pude deixar de sorrir ao lembrar-me dos adeptos do Sporting Clube de Portugal que conheço, que quase sem excepção, se gabam do perfil superior a nível social e comportamental dos membros, adeptos e simpatizantes do seu clube quando comparados por exemplo, com os do Sport Lisboa e Benfica. Se de facto dentro das pessoas que apreciam o desporto rei, estas são consideradas a elite a nível social e comportamental, nem quero pensar como seria se tivessem metido o Estádio da Luz na lista, mas sinceramente creio que as reacções deveriam ser similares, talvez em maior número.

O que é certo e para evitar problemas, o Público rapidamente encerrou a discussão e a sondagem e nunca mais se ouviu falar dos horrores de Portugal excepto talvez por Vasco Graça Moura, em lado algum.

Os meus parabéns às cobras e lagartos que conseguiram com os seus excessos mais uma vez dar uma prova inequívoca do primitivismo da nossa sociedade comparável apenas aos países fundamentalistas do terceiro mundo aquando por exemplo, da questão dos cartoons dinamarqueses que envolviam o profeta Maomé sendo que estes pelo menos tinham motivos concretos de natureza teológica sem falar no seu contexto civilizacional actual relativamente atrasado e que não se pode comparar o valor espiritual da religião com o do futebol.

Também congratulo o facto de terem conseguido esmagar por completo a discussão, fazendo com que o Público discretamente abafasse a coisa por completo. Aplausos para o vossa capacidade de união, iniciativa e mobilização e espero apenas que também o seja para questões relevantes da vida.