Bocas Olímpicas

Comitiva Olímpica Portuguesa

Como sabemos houve um grande circo mediático em torno das afirmações polémicas de três atletas portugueses que foram repetidas até à exaustão, isto curiosamente apesar do laconismo em relação aos mesmos até às afirmações polémicas que proferiram. Anonimato esse em que permaneceram por completo os atletas olímpicos não medalhados apesar da conquista de lugares de grande relevo entre os primeiros 10 por parte de muitos e records nacionais e pessoais batidos.

A grande vedeta do circo mediático gerado pelos orgãos de comunicação social foi o atleta do lançamento do peso, Marco Fortes que depois do resultado algo decepcionante de 18,05 metros e dois ensaios nulos, algo abaixo do seu record pessoal de 20,17 metros (para uma opinião sobre o resultado em si, podem ir aqui) proferiu a seguinte frase supostamente lapidar:

Cheguei à conclusão que de manhã só estou bem na caminha. Lançar a esta hora foi muito complicado. Apesar de ter entrado bem na prova, com dois lançamentos longos com mais de 19 metros, no último as pernas queriam era estar esticadas na cama.

A que podemos somar ainda esta dita na véspera dos lançamentos:

O meu maior desejo é que os atletas com melhores marcas estejam de rastos e que não possam com o peso na sexta-feira, que durmam mal, comam qualquer coisa que lhes faça mal, que não queiram ir para a pista, coisas assim.

É verdade que estas afirmações, ainda que sendo piadas, caiem muito mal sobretudo quando as vemos escritas algures e pior ainda, completamente dissociadas do contexto e tom com que foram afirmadas.

Não subscrevo nem aprovo estas afirmações. Saiu-lhe mal a piada, é verdade. Mas aquilo que realmente enojou na polémica em torno do Marco Fortes não foram tão pouco as suas afirmações mas as consequências.

Começou com o circo da comunicação social, que repetiu e repetiu e repetiu “apenas o de manhã só estou bem na caminha” fora do contexto e com especial relevo para a RTP que depois de ter sido um dos principais instigadores desta polémica em horário nobre, convida o Marco Fortes para o Diário Olímpico que dava todos os dias à meia noite, uma da manhã. Melhor que isso foi o pivot da RTP se dirigir ao Marco Fortes com uma postura de condenação face ao circo mediático, como que lavando as mãos da RTP da embrulhada toda.

Melhor ainda esteve o Comité Olímpico de Portugal. Já dando bem as provas de uma fraca resistência à histeria que começou com dança de cadeiras do seu Presidente, Vicente Moura que num espaço de poucos dias a meio da competição saltou literalmente do barco retirando toda a fé e confiança aos seus próprios atletas fazendo-lhes fortes acusações e apresentou a demissão, recuou para o não me volto a candidatar e por fim se ficou na recandidatura, resolveu nada mais nada menos que castigar o atleta enviando-o mais cedo para casa numa espécie de marcha do degredo para acalmar a sede de sangue em Portugal.

Ainda que tivessem que castigar este atleta, que o fizessem depois do fim dos Jogos com a devida serenidade e sangue frio (apesar de considerar que o mau resultado é já um castigo mais do que suficiente para o atleta em causa).

Na RTP, Fortes pediu desculpa e justificou-se com a pressão, desilusão e o seu sentido de humor característico. Por mim, teria sido bem melhor que o tivesse podido fazer ainda em Pequim.

No lançamento do martelo a polémica foi em torno de Vânia Silva que depois do desapontante resultado de 59,42 metros, bem abaixo dos 73,92 metros da cubana Yipsi Moreno que arrecadou o ouro e até mesmo da décima, a bielorrussa Aksana Miankova com 69,77 metros. A sua frase foi:

Estava bem, fiz o aquecimento bem. A única explicação é que, infelizmente, não sou muito dada a este tipo de competições. Em campeonatos da Europa, campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos, o melhor que fiz foi 63 metros nos últimos Jogos Olímpicos.

Não consigo é lidar muito bem com o facto de nestas provas fazermos só três lançamentos. Em Portugal normalmente há sempre seis. Tecnicamente acho que lanço bem, vejo as imagens e não encontro erros. Parece que sai bem, mas no final… o que faço é contrair e o martelo não vai longe.

Desta vez a comunicação social achou por bem ficar-se por apenas o “infelizmente, não sou muito dada a este tipo de competições” mais uma vez tentando ampliar o seu horário de telenovelas para os noticiários, descontextualizando completamente as afirmações da atleta que infelizmente se ficou apenas pelo quadragésimo sexto lugar.

Por fim, as últimas afirmações que causaram o choque, o horror, a tragédia foram:

Agora vou de férias. Treinei para os 3000 obstáculos. Não vou aos 5000 metros. As africanas são fortes. Não vale a pena lutar contra elas. Elas correm para 14m11s e eu para 15m22s. Por isso…

Apesar das afirmações lá acabou por ir competir para os 5000 metros onde teve um mau resultado. Mas aqui tenho que reconhecer que pela boca morre o peixe. Ela supostamente mudou-se dos 5000 para os 3000 precisamente para evitar a competição africana, e tudo bem que se justificasse dizendo que não tinha preparação suficiente para estar nos 5000 mas o que sobressai desta afirmação é mais desalento e falta de fé nas suas capacidades que propriamente falta de preparação.

Seja como for, Jéssica Augusto foi eliminada dos 3000 metros ficando com a quinta posição da sua série, depois de ter caído do terceiro lugar no último obstáculo.

De resto espero que estes atletas continuem a dar o seu melhor e continuem a representar Portugal, embora com mais cuidado nas palavras. A comunicação social é o que bem se sabe e por isso nestes casos mais vale seguir o lema de confúcio patente no topo da barra lateral.

No entanto, a partir do momento em que Paulo Friscknecht diz o que diz e da dança de cadeiras de Vicente Moura, estas afirmações dos atletas parecem-me completamente irrelevantes e desculpáveis.

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