Shogunato Universitário

Gago Shogun

Com o mediatismo e imensa polémica primeiro em torno do acordo MIT-Portugal e agora mais recentemente com o novo regime jurídico do ensino superior português, Mariano Gago tem provado que não gagueja no que diz respeito à visão que tem do futuro académico português e tem empunhado, com o estandarte da modernização e adaptação às novas realidades, muito ao estilo do governo de que faz parte, uma espada contra os fortes interesses instituídos na academia portuguesa.

Outro ponto extremamente polémico na gestão de Gago, tem sido o favoritismo que tem concedido à sua casa-mãe, o Instituto Superior Técnico ou simplesmente IST. Os turbilhões no acordo MIT-Portugal somados agora ao encaixe perfeito do novo regime jurídico às necessidades do IST de acordo com a visão do seu colega do Departamento de Física do IST, o Professor Carlos Matos Ferreira, actual presidente do IST, parecem não deixar dúvidas relativamente às motivações de Gago ou pelo menos parte delas.

Antes de elaborar mais sobre o tema deste artigo, é importante contextualizar o panorama histórico-social do nosso país ao longo do século XX durante a ditadura do Estado Novo, a sua queda e consequências nas estruturas existentes que ficaram de pé nos escombros do antigo regime e os reflexos destes acontecimentos no actual paradigma académico do sistema democrático em que vivemos.

Tendo em conta a extensão da contextualização, achei conveniente colocá-la num artigo aparte, A Herança Corporativa do Estado Novo.

Continuando, o Instituto Superior Técnico não é excepção e representou ao longo dos seus quase 100 anos de existência, um grupo corporativo fortemente associado ao mundo da engenharia portuguesa do século XX, antes e depois da Revolução. Instituição que sempre se viu desde a sua fundação, como paradigma da engenharia em Portugal.

Sentimento corporativo, é isso que é transmitido aos alunos desde o primeiro momento em que entram na instituição em que é promovida uma visão de excelência e exclusividade temperada pelo sacrifício e esforços sobre-humanos que mais parecem um relato de uma lenda da mitologia clássica. Um calvário que sagra aqueles que o superam, com graça divina e superioridade face ao resto do mundo académico.

Apostado em imprimir a imagem de si mesmo nas mentes do seu corpo académico e estudantil, há um sentimento muito forte que é imposto desde o primeiro momento no IST, é que somos alunos não da Universidade Técnica de Lisboa mas sim do Instituto Superior Técnico e relembro que o segundo integra a primeira apesar de ser mais antigo (IST - 1911, UTL - 1930).

A própria arquitectura do edifício, expoente arquitectónico da arquitectura modernista do fascismo, sugere esta imagem de espécie de sacerdócio que acima tentei transmitir. Um campus extenso, rodeado por muros, fechado sobre si mesmo, perfeitamente auto-suficiente. Não é só na função que o espírito permanece, mas também na própria estética fria, recta e até dura do edifício, o ambiente grave é cultivado embora actualmente esteja descaracterizado pela neutralidade estética das novas estruturas e acrescentos.

Tudo isto para contextualizar Mariano Gago. Assumindo que concluiu os estudos em tempo normal, Gago frequentou o IST aquando do apogeu corporativo desta instituição ainda durante o Estado Novo, onde viria a ser professor depois de concluir os estudos. Apesar do seu extenso trabalho fora do país, Gago não cortou a ligação com o IST onde mantém a posição de Professor Catedrático do Departamento de Física do IST. Acho que é seguro afirmar, que Gago é um “Homem do Técnico”, um verdadeiro paladino e produto acabado da lógica corporativa que rege aquela instituição.

Gago já vai no seu terceiro mandato como ministro. Foi primeiro, Ministro da Ciência e Tecnologia nos dois mandatos do período Guterrista aquando da criação da pasta, e regressa agora com competências alargadas para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. É conveniente relembrar que as competências alargadas deste ministério ao Ensino Superior, foram asseguradas nos mandatos de Maria da Graça Martins da Silva Carvalho, também professora do, e formada no Instituto Superior Técnico.

Em 8 anos de existência, apesar da travessia de um dos mais conturbados períodos políticos portugueses dos últimos anos, este jovem ministério não só conseguiu manter-se vivo ao longo dos 4 governos, como ainda conseguiu fortalecer as suas competências e estendê-las ao Ensino Superior, tudo isto sempre com um factor comum apesar da diversidade partidária, alguém associado ao Instituto Superior Técnico na chefia do ministério.

Por fim, lembro e sublinho que o IST não é a única instituição no Ensino Superior português com perfil fortemente corporativo, mas simplesmente mais uma. Todo o peso, tradição e idade que tem, somados à sobrevivência ao longo do conturbado século XX português, o estatuto corporativo desta instituição está mais forte do que nunca. E se é mais ou menos certo que o Instituto Superior Técnico e grupos associados constituem a autoridade na ciência e tecnologia em Portugal, parece-me que o Instituto Superior Técnico se prepara para ser o paradigma institucional do Ensino Superior português pela mão de Mariano Gago e do novo regime jurídico que vai pautar este sector da sociedade.

Neste shogunato que constituí o universo académico português, o conflicto permanente e silencioso entre as instituições de Ensino Superior não cessa. Mas estando neste momento em posição privilegiada, seguindo a tradição corporativa portuguesa, Gago tem lutado para moldar o Ensino Superior português às necessidades e perfil do IST. Depois da derrota na batalha pela exclusividade do acordo MIT-Portugal com o Instituto Superior Técnico, eis que juntamente com Matos Ferreira sai novamente derrotado com o chumbo da proposta de transformação do Instituto Superior Técnico numa “Instituição de Ensino Superior Pública de Natureza Fundacional” pelo Conselho Científico.

Resta saber se alguma coisa vai ser feita para contrariar esta decisão. Confesso que acho estranho o silêncio em que se fecharam os promotores do estatuto recém criado após o seu chumbo por uma margem irrisória:

O Conselho Científico do Instituto Superior Técnico chumbou a proposta de passagem a fundação, intenção que era atribuída ao próprio ministro Mariano Gago, professor catedrático daquela escola da Universidade Técnica de Lisboa.

O presidente do IST tinha-se comprometido a deixar nas mãos dos cerca de 700 doutorados do Conselho Científico a última palavra sobre a realização de uma assembleia específica para votar a passagem do IST a fundação. A votação, que terminou ontem à noite, foi participada por 544 professores. Além dos votos nulos e brancos, 276 votantes disseram “não” à mudança de estatuto, contra 258 partidários da autonomização, pese embora o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, que ontem entrou em vigor, obrigue a um consórcio com a universidade de origem.

Jornal de Notícias

De resto na minha opinião, é com pena que vejo o chumbo da proposta. Considero que neste momento, o Instituto Superior Técnico está impregnado de vícios resultantes do seu modelo actual de gestão.

Não vou aqui desenvolver as acusações derivadas da minha experiência na instituição, mas não posso deixar de enunciar algumas delas:

  • A AEIST (Associação de Estudantes do IST) é uma organização perfeitamente dissociada dos interesses dos alunos que detém imenso poder nas estruturas do IST através de tráfico de influências e manobras políticas perfeitamente asquerosas e as utiliza para extrair proveitos económicos de natureza usurária aos estudantes e à própria instituição. É um verdadeiro feudo para a mediocridade estudantil da instituição, gerido por alunos aparentemente incapazes de estudar porque estão “demasiado ocupados” com os seus tachos;
  • Alguns mas ainda assim muitos funcionários docentes e não docentes com comportamentos perfeitamente surrealistas no que diz respeito provavelmente à sua visão muito particular dos seus direitos mas sobretudo dos seus deveres e obrigações dos quais não parecem ter consciência;
  • A burocracia extrema de natureza estatutária e legal que estrangula a iniciativa dos próprios orgãos de adminitração e de todas as organizações e orgãos associados ou constituintes da instituição.

A história ensina-nos que este tipo de problemas são atenuados por perfis de gestão e organização de natureza privada e apesar do novo estatuto proposto ser demasiado dependente do Estado a nível administrativo e certamente não corrigir estes problemas do dia para a noite, tenho a certeza de que gradualmente seriam corrigidos ou pelo menos atenuados.

A actual dependência dos orgãos políticos da UTL transformou o IST numa teia de interesses políticos e pessoais e desvirtuaram em muito a Instituição sob uma falsa bandeira de interesses democráticos e estudantis.

Na tradição japonesa, o Shógun era nomeado pelo Imperador em tempo de crise para substituir as competências executivas do Conselho de Regentes. A mediocridade e inutilidade de grande parte do Ensino Superior Público e Privado, os lobbies instalados em certas áreas científicas e profissionais bem como a situação perfeitamente asquerosa de algumas instituições de ensino privado como a Universidade Moderna ou a Universidade Lusófona têm criado a disforme camada de profissionais com estudos superiores caracterizada por falta de qualidade, excesso de oferta numas áreas e lacunas tremendas noutras, incompetência generalizada resultante da enorme oferta de formação deficiente em certas áreas mais populares, entre todos os problemas que conhecemos é justificativa mais do que suficiente para que o ministro que tutela a área assuma essa postura. Veremos como a gere e se a consegue manter…

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  1. 1 A Herança Corporativa do Estado Novo | ecce homo

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