O Instituto

Ainda envolto e matinal, vestiu-se mecânica e agilmente entre a cálida Primavera dos raios que chegavam pela fresca janela. O Sol nascia… E enjoado pelo entusiasmo da insónia, cansado pela noite, mas animado pelo dia, saíra da cama e esvoaçava pela ligeira neblina até à estação.

Era o primeiro dia de uma nova etapa, ou pelo menos, assim o via. Entre o bulício do pequeno terminal entrava no comboio. Outros como ele se dirigiam hoje para a capital. Num deserto de caras conhecidas, não reconheceu ninguém e sentou-se numa cadeira sozinha ao pé da janela. Entre os carris, ruídos e fumos deixava a sua terra natal, a sua família e um conjunto de poemas bem conhecidos para dar o primeiro passo em direcção à sua independência e vida adulta.

Sem saber ao certo o que o esperava, de mãos abertas e sem qualquer tipo de expectativa boa ou má, deixava na mala o seu passado e procurava agarrar como louco fugitivo sedento de liberdade, a incerteza desse futuro que tanto temia mas pelo qual tanto ansiava. O comboio partia. Comboio do inconsciente, onde depositava todas as suas esperanças, sobretudo de encontrar algo completamente diferente e distinto dos bucólicos campos e das vastas planícies que hoje abandonava na janela da carruagem.

Já aninhado no calor da carruagem, distraído e sonolento, ignorava os conterrâneos e deixava lentamente embalar-se pelo metrónomo da velha linha… assistindo desligado às verdes planícies salpicadas de sobreiros e aldeias distantes que entre os caminhos e riachos, velhas estradas e pontes, lhe corriam pelos olhos da janela embaciada.

E neste sono acordado fluíam-lhe as águas apressadas de um inquieto e fresco riacho primaveril onde corriam todas as escolhas e eventos, todas as encruzilhadas que o tinham trazido até ao dia presente. E nas faces desses fios de água rápidos e transparentes, incisivos reflexos desse Sol que não conseguia encarar encandeavam-no, ferindo-lhe os olhos claros. Rapidamente desviava o olhar e o pensamento acordando, mas deixava novamente o sonho seguir em frente, ignorando todos os condicionamentos, medos e manias que corriam nessa cortina de água, reflexos e luz que impossibilitado de agarrar ou fixar na sua mente, agora desagoava na foz desta nova era… Pim! A carruagem engasga-se e arrancado desse fluxo, subitamente acorda. O comboio chegara.

Animado pela adrenalina do sobressalto, sai rapidamente do comboio e ignorando as multidões, atravessa a estação parecendo invisível à confusão matinal na grande cidade. Familiar às velhas ruas, deambulava até ao seu objectivo ainda perdido nos labirintos do sonho que tivera.

Mas sim, queria virar a página! Em boa verdade, nem faria sentido de outra forma. Queria acima de tudo esquecer esse passado e abraçar com esperança renovada o futuro que se aproximava inquieto, o que só era possível no gentil embalo da ingénua ignorância de si mesmo, correndo sempre para os seus longos braços depois dos breves momentos de consciência que o assolavam, esquecendo-se por completo do que fora, do que era… Sempre nessa ilusão, na esperança daquilo que virá…

E foi em passo apressado, num misto de optimismo e distracção que caminhou pelas velhas ruas do antigo regime, e lhe afloravam algumas destas emoções e pensamentos, enquanto revia mentalmente todo o jogo burocrático envolvido no misterioso processo de inscrição.

No entanto, e à medida em que resolvia mentalmente estas preocupações prácticas, por maior que fosse o esforço para esse conveniente esquecimento, o prisioneiro sedento e afogueado temia em todas as ruelas e esquinas desta nova vida, a velha polícia do passado ou a denúncia anónima de uma qualquer memória há muito esquecida.

E foi neste inquieto estado de alma que subiu a velha colina e depois a escadaria até aos ferrugentos portões do Instituto.

André Cunha

Vandalismo

Vandalizemos…

És uma sombra nocturna de luz celeste,
Nobre, doce e dócil como as estrelas de outrora,
O Anjo áureo que leva os beijos da aurora,
Mais brilhante e rubra desde que amanheceste.

Rafael Silveira Neves

Sou uma sombra nocturna de infernal chama,
Pétrea, fera e feral como as memórias de outrora.
Ó Anjo ígneo que impõe o crepúsculo na aurora,
Mais louca e rubra nesta minha cama…

André Cunha

Save The Last Dance For Me

Em virtude de mais um debate na televisão pública sobre o casamento homossexual, lembrei-me que no popular programa O Gato Fedorento Esmiuça os Sufrágios, quando confrontado com a questão do casamento homossexual, Paulo Portas respondeu com um ar de sua graça dizendo que “em Portugal, há homens que vivem com mulheres, homens que vivem com homens, mulheres que vivem com mulheres e há quem viva sozinho”, rematando com “ora, eu vivo sozinho”. Pergunto-me se será por amargura de solidão?

Lembrei-me ainda, de forma mais pertinente, de uma polémica que houve há uns tempos em torno do tradicionalíssimo e não menos pretensioso baile de finalistas da minha antiga escola, a Escola Secundária Diogo de Gouveia (antigo Liceu Nacional Diogo de Gouveia), mas vulgarmente conhecido hoje e sempre por apenas Liceu, em torno de duas raparigas que manifestaram o desejo de dançar juntas nessa ocasião. Infelizmente parece que o “preceito” voltou a imperar e as raparigas não dançaram nesse nobilíssimo evento, no entanto deixo aqui um convite…

Alguém quer dançar?