A Verdade é Soberana Nesta Casa

Vivi sempre na cabeça e agora conheço o coração. Cabeça esta que sempre aspirou a coração mas que agora por ele se deixou enjaular. Cabeça esta que dita desesperada os termos da minha clausura e opressão mas que este coração rejeita levando-me a labirintos por onde sempre caminhei mas onde nunca me perdi, labirintos que para mim eram corredores bem definidos.

Agora já não sei agarrar-me e não sei onde estou. Levaram a minha tocha e perco-me no negrume do meu interior e fujo, fujo para não encontrar aquilo que sei que me espera no fim deste tango de silêncios, deste carrocel desvairado.

Sempre me pintei como a uma tela mas agora as tintas misturaram-se e já não encontro as cores. As correntes da minha ética partem e o ferro negro é cada dia mais vermelho e a cabeça não suporta e castiga-me com enlaces divinos.

Nem sei porque professo estas palavras, já perdi o seu significado, quanto mais vejo mais odeio este retrato que agora tenta ganhar vida das sombras que o contemplam.

Sombras de formas indefinidas que bailam entre chamas num reflexo de água cristalina que provoca a sede daqueles que a bebem escorrendo em suores frios pelas faces cavadas por um escopro afiado.

E é este o estupro em que consiste o sentimento. É monstro que nos desonra a alma, qual besta amordaçada que rasga com os dentes os quistos que lhe afloram pelo corpo que nos destrói dentro da jaula da nossa ética até ao dia em que se dissolve no sangue de uma intenção não concretizada.

É este o preço dos why should I’s quando se abdicou da urgência dos now’s e não se avança a braçadas largas nas torrentes dos why not’s.

É esta a face do pânico, da angústia não revelada, da cabeça que renega o coração que a domina e se encerra entre smoke and mirrors em personificações daquilo que não se permite que nasça fora das grutas da alma.

Estou esgotado…

A verdade foi parida. É um rebento grande e grotesco que não cabe pelo sifão da minha alma. Tirei-a de cesariana mas só a vi envolta em vestes ensopadas com este meu sangue. A quem anuncio o nascimento? Terá nascido morta? Antes de ser verdade já será mentira? Tem vergonha, por isso está envolta ou será que é a mãe que dela se envergonha?

Nas ilhas aladas, num baptismo de rapina, a Oliveira só dá flor, nunca o fruto.

André Cunha

Vira o disco e toca o mesmo…

Uma monatgem entre Pútin e Brejnev

Iniciei este post inicialmente para comparar os hinos da antiga União Soviética com o da Federação Russa actual. Mas motivado pelos fortes acontecimentos mais recentes, associados a esta nação, não posso deixar de fazer um interregno antes de me dedicar aos hinos mais à frente.

Depois das denúncias dos crimes estalinistas e tentativas de reabilitação do Comunismo por Khrushchov, o regresso à repressão da linha dura com Brejnev, a decapitação do Comunismo por Gorbatchov e a liberalização sem freios ou regras de Iéltsin eis que Pútin parece afirmar-se agora sem quaisquer dúvidas, como um novo Brejnev.

Após muitos sinais de repressão social e política na Rússia, de pressão social, política, económica, energética e militar nos últimos tempos nas antigas repúblicas integrantes da extinta União Soviética e mais recentemente com o forte estímulo directo e indirecto, ao separatismo de províncias pró-russas em todo o mundo eslavo, em particular na Ossétia do Sul e na Abkházia que resultou até mais ver, no conflito armado com a Geórgia, Pútin confirma os piores receios.

Por isso, 20 anos depois da desfiguração do Socialismo de rosto humano proposto pelos checo-eslovacos pelo punho de ferro de Brejnev depois da Primavera de Praga, eis que a Rússia, desta vez pela mão de Pútin, parece regressar aos velhos costumes da Guerra Fria que parece no entanto estar cada vez mais quente.

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