Moisés

Hoje tropecei na estátua do Moisés e sonhei com uma lenda associada a esta obra. Os caminhos da minha mente foram um pouco mais sombrios que a lenda original mas resolvi escrever isto aqui antes que me esqueça, porque assim são os sonhos, efémeros e esfumam-se por entre os dedos por mais que os tentemos fixar.

Moisés de Michelangelo

Moisés

A brisa fresca cintilava entre as ramagens sibilantes da manhã. Entre a azáfama primaveril o louco exaltava os homens. Incrédulos transportavam o volume alvo pelo magro pórtico esmagando as roseiras brancas do jardim. Directo de Fiesole, o enorme bloco protagonizava agora o verdejante palco da pequena propriedade. Esgotados, o escultor apressava agora os homens para fora da propriedade, atarantados sorriam idiotas face ao seu esgar irado e sem pressas abandonavam as imediações. Com gestos bruscos e apressados, expulsava-os apressadamente, atingido pela luxúria criadora procurava nos labirintos da sua idealização as linhas do projecto.

Em cada instante desenhava-se na sua mente a forma que nasceria naquele tosco seráfico. Correu para a pedra e sentiu-a com as mãos ásperas e experientes, com elas percorreu o paralelepípedo, possuído pela ânsia da sua visão. Os dedos percorriam o corpo branco e adivinhavam as formas que já via na sua mente. Percebia a pedra, sentia-lhe cada detalhe, o escopro da sua vaidade artística desenhava cada contorno, cada ângulo, emergiam no barro criador da sua mente e nunca se enganava, não, a pedra tinha o marco da criação e os meses de persistência necessária para trabalhar o mono afiguravam-se como segundos.

Incansável, descobriu dia após dia, mês após mês as formas desta réplica dos seus desejos. Revelou-lhe rapidamente as faces angulosas, o nariz fino e rectilíneo, o olhar determinado pautado por melancolia e cansaço de uma viagem de quarenta anos, a boca grave dos povos do deserto… Já lhe adivinhava o corpo seco e musculado, os ossos salientes entre os músculos, os dias escorriam por cada veia que se definia, desde as mãos longas e ossudas do profeta que não foi até aos pés cansados das pernas viajadas. Mas prosseguia a encomenda da fé que o invocava, martelava e compunha cada curva, o torso esguio, as pernas musculadas pela longa viagem e em cada golpe tudo se definia, o futuro do passado da vontade daquele que morreu às portas da terra prometida.

A promessa divina estava finalmente ao seu alcance, a obra terminada coberta pelo lençol branco manchado pelo sangue e suor do ardor que o possuía. A noite estava tépida e a natureza aguardava em expectativa entre ventos que não sopram. Meses haviam passado, o Verão chegava ao fim. Num gesto inesperado revela perante os seus olhos o resultado do seu idílio. Fita silencioso a figura humana que ali se senta sobranceira entre os escombros que a ocultavam. “Levanta-te e anda!” grita exasperado, mas a figura pétrea olha distraidamente para o lado, contemplando as rosas secas no jardim.

Raiado pela incompreensão e incrédulo, o génio lança-se sobre ela e de martelo e escopro em punho ataca o velho recém-nascido por sua mão. Quebra-lhe o gesto altivo transformando os dedos nodosos em cascalho, a que se seguem os braços encostados que rapidamente perdem a forma e furioso martelando-lhe os joelhos, os membros rapidamente se confundem com os escombros do nascimento daquilo que agora morria.

O ar anseia, o coração palpita forte e esperam-no. Incrédulo e com olhar langue e cego fita a expressão arrogante daquela cara erguida sobre um torso desmembrado que ridiculamente parece ignorar toda a situação. Num último ímpeto de raiva, investe contra a sua obra e desfere-lhe um rude golpe no meio daquela expressão que O enfrentou e agora cai por terra: a cabeça fitando o infinito parte e cai no chão e rolando deixa adivinhar as linhas que a definiam.

O jovem pega por fim no escopro, e em direcção ao torso do velho decapitado: “pam, pam, PAM… … (silêncio)”, o martelo enterra o escopro no peito trabalhado. Fitando os escombros limpa o suor, sorri candidamente e vira as costas… Daquilo que era nada fez tudo e do tudo o reduziu a nada.

André Cunha

A Estátua

Mão de DavidA Estátua

Em pedra me transmutei,
Em pedra me esculpi,
Em pedra me prendi!
Nesta forma, nesta prisão,
Cuja liberdade implica destruição.

Serei granito?
A rigidez, carcereiro,
Vigia com constante alento.
As grilhetas correm-me nas veias,
As correntes ligam o músculo cinzento,
Tendões de pedra em raios de feldspato,
Luto eterno num breu de mica,
Cristalizado em lágrimas de quartzo.

Serei calcário?
Porque os céus são ácidos,
Torneiam os ângulos da alma,
Com o seu clamor
E nas suas lágrimas
Relembro as minhas,
Água quente e salgada
Nascente nas faces lisas
Desta rocha quebrada.

Serei mármore?
Na amarga doçura de Ambrósia,
Numa embriaguez de Néctar,
Há muito que me perdi
Num metamorfismo de altivez,
Falsa forma humana
Na fria elegância
Dos veios de Carrara.

No teatro Humano,
Movimentos simulados, uma imitação;
Na cegueira do pedestal,
Uma mentira por definição,
Jaz este estático ideal, esta ilusão.
Esculpido sem escultor,
Estúpida criação!

André Cunha