Estepe

O que é isto?

Descobrimos a Luz nos reflexos do tumultuoso rio do Espírito e enchemos um frasco de perfume para nos recordarmos. A fonte secou… No meio da Escuridão usámos o frasco para nos encher a Alma. Então levantei-me para evitar que adormecesse e esquecesse… Mas quando me deitei tinha adormecido… Levantei-me calmamente e num beijo perguntei, lembras-te de mim?

André Cunha

Hitokiri

In the mellow sheets of the shredded sunset
Lies the warrior standing on his sheathed sword
There he is, eyes wide shut
Listening to her singing
Of that blade which protects him from previous raping
There he stands, supporting himself on the invisible aggression
That shattered blade he wields unknowingly on his defense
Even after sworn against it
That broken mirror that does not exist
It’s all he has left to be

Before him, the crowds walk
Ignoring this old young shadow
He recognizes some faces
Remembering his unexisting life
Sorrow and regret bloom within his urge
He grabs the handle, ready to attack the peace…
Does he refrain?
Two tears are shed, only he remains…

André Cunha

A Verdade é Soberana Nesta Casa

Vivi sempre na cabeça e agora conheço o coração. Cabeça esta que sempre aspirou a coração mas que agora por ele se deixou enjaular. Cabeça esta que dita desesperada os termos da minha clausura e opressão mas que este coração rejeita levando-me a labirintos por onde sempre caminhei mas onde nunca me perdi, labirintos que para mim eram corredores bem definidos.

Agora já não sei agarrar-me e não sei onde estou. Levaram a minha tocha e perco-me no negrume do meu interior e fujo, fujo para não encontrar aquilo que sei que me espera no fim deste tango de silêncios, deste carrocel desvairado.

Sempre me pintei como a uma tela mas agora as tintas misturaram-se e já não encontro as cores. As correntes da minha ética partem e o ferro negro é cada dia mais vermelho e a cabeça não suporta e castiga-me com enlaces divinos.

Nem sei porque professo estas palavras, já perdi o seu significado, quanto mais vejo mais odeio este retrato que agora tenta ganhar vida das sombras que o contemplam.

Sombras de formas indefinidas que bailam entre chamas num reflexo de água cristalina que provoca a sede daqueles que a bebem escorrendo em suores frios pelas faces cavadas por um escopro afiado.

E é este o estupro em que consiste o sentimento. É monstro que nos desonra a alma, qual besta amordaçada que rasga com os dentes os quistos que lhe afloram pelo corpo que nos destrói dentro da jaula da nossa ética até ao dia em que se dissolve no sangue de uma intenção não concretizada.

É este o preço dos why should I’s quando se abdicou da urgência dos now’s e não se avança a braçadas largas nas torrentes dos why not’s.

É esta a face do pânico, da angústia não revelada, da cabeça que renega o coração que a domina e se encerra entre smoke and mirrors em personificações daquilo que não se permite que nasça fora das grutas da alma.

Estou esgotado…

A verdade foi parida. É um rebento grande e grotesco que não cabe pelo sifão da minha alma. Tirei-a de cesariana mas só a vi envolta em vestes ensopadas com este meu sangue. A quem anuncio o nascimento? Terá nascido morta? Antes de ser verdade já será mentira? Tem vergonha, por isso está envolta ou será que é a mãe que dela se envergonha?

Nas ilhas aladas, num baptismo de rapina, a Oliveira só dá flor, nunca o fruto.

André Cunha