A Estátua

Mão de DavidA Estátua

Em pedra me transmutei,
Em pedra me esculpi,
Em pedra me prendi!
Nesta forma, nesta prisão,
Cuja liberdade implica destruição.

Serei granito?
A rigidez, carcereiro,
Vigia com constante alento.
As grilhetas correm-me nas veias,
As correntes ligam o músculo cinzento,
Tendões de pedra em raios de feldspato,
Luto eterno num breu de mica,
Cristalizado em lágrimas de quartzo.

Serei calcário?
Porque os céus são ácidos,
Torneiam os ângulos da alma,
Com o seu clamor
E nas suas lágrimas
Relembro as minhas,
Água quente e salgada
Nascente nas faces lisas
Desta rocha quebrada.

Serei mármore?
Na amarga doçura de Ambrósia,
Numa embriaguez de Néctar,
Há muito que me perdi
Num metamorfismo de altivez,
Falsa forma humana
Na fria elegância
Dos veios de Carrara.

No teatro Humano,
Movimentos simulados, uma imitação;
Na cegueira do pedestal,
Uma mentira por definição,
Jaz este estático ideal, esta ilusão.
Esculpido sem escultor,
Estúpida criação!

André Cunha

Variações de Pessoa

Ao passear pela minha razoável biblioteca digital de música, dei de caras com o último álbum e grande êxito que António Variações publicou pouco antes da sua morte, “Dar e Receber”.

Variações e Pessoa

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